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Quem tem medo da jararaca? – por Alexandre Borges (Veja)

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A volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva às ruas pode mexer com todo tabuleiro político do país. O retorno da polarização entre Lula e Jair Bolsonaro pode beneficiar a narrativa de ambos, ressuscitando a divisão do país pós-impeachment que colocou ambos como os principais atores políticos do Brasil desde 2017. Os jogadores e a torcida deste Fla x Flu eleitoral já aquecem na lateral do campo. Foi o próprio Lula que se comparou a uma cobra venenosa logo depois do depoimento com condução coercitiva determinado por Sérgio Moro meses antes da prisão definitiva: “se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo”. Em 1989, Brizola já havia apelidado Lula de “sapo barbudo”, repugnante mas nada assustador. Lula dobrou a aposta. Segundo nota do Radar da Veja de hoje, Lula teria dito a um dirigente petista: “eu era o Lulinha paz e amor e mesmo assim me colocaram aqui dentro. Agora vou sair com o sangue nos olhos”. A provocação tem tudo para ser aceita. Lula nunca permitiu o surgimento de políticos que pudessem rivalizar com a sua liderança na esquerda e o resultado prático, depois de mais um ano e meio da sua prisão, foi a eleição de um arquirrival radicalmente anticomunista para o Planalto e uma oposição acéfala, anódina, sem discurso ou qualquer apelo popular. O petista vê na disputa com o atual presidente uma possibilidade de desforra em relação ao ex-candidato que superava, muitas vezes com folga, em todas as pesquisas eleitorais até ser preso, além de liderar a oposição ao governo que hoje surfa relativamente tranquilo pela falta de adversários relevantes aos olhos do eleitor ao seu projeto político. É importante lembrar que Lula, na sua “caravana pelo país” interrompida em abril de 2018 pela sua prisão, tinha uma dificuldade enorme de engajar militantes e juntar mais do que um punhado de ouvintes em seus comícios de norte a sul do Brasil, mas seu nome insistia em liderar as pesquisas de opinião e seu candidato na eleição do ano passado, Fernando Haddad, conseguiu chegar ao segundo turno. Já Bolsonaro vai ter a chance única de deixar de lado as brigas fratricidas contra aliados, colaboradores e até contra o próprio partido e voltar a duelar com um antagonista ideológico de verdade, um ex-presidiário envolvido nos maiores escândalos de corrupção da história do país com uma sucessora que sequer se elegeu senadora no ano passado. O presidente terá uma oportunidade rara de resgatar o espírito das manifestações de 2015/16, sair do incômodo patamar de 30% de popularidade e voltar a unir a maioria do país contra o risco real de volta esquerda ao poder, como aconteceu recentemente na Argentina em mais um presente para a narrativa preferida de seus apoiadores mais radicais: “se criticar, o PT volta”. Quanto mais medo a jararaca conseguir colocar no eleitor, melhor para Bolsonaro. O tempo dirá se ela ainda tem algum veneno.
A volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva às ruas pode mexer com todo tabuleiro político do país. O retorno da polarização entre Lula e Jair Bolsonaro pode beneficiar a narrativa de ambos, ressuscitando a divisão do país pós-impeachment que colocou ambos como os principais atores políticos do Brasil desde 2017. Os jogadores e a torcida deste Fla x Flu eleitoral já aquecem na lateral do campo. Foi o próprio Lula que se comparou a uma cobra venenosa logo depois do depoimento com condução coercitiva determinado por Sérgio Moro meses antes da prisão definitiva: “se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo”. Em 1989, Brizola já havia apelidado Lula de “sapo barbudo”, repugnante mas nada assustador. Lula dobrou a aposta. Segundo nota do Radar da Veja de hoje, Lula teria dito a um dirigente petista: “eu era o Lulinha paz e amor e mesmo assim me colocaram aqui dentro. Agora vou sair com o sangue nos olhos”. A provocação tem tudo para ser aceita. Lula nunca permitiu o surgimento de políticos que pudessem rivalizar com a sua liderança na esquerda e o resultado prático, depois de mais um ano e meio da sua prisão, foi a eleição de um arquirrival radicalmente anticomunista para o Planalto e uma oposição acéfala, anódina, sem discurso ou qualquer apelo popular. O petista vê na disputa com o atual presidente uma possibilidade de desforra em relação ao ex-candidato que superava, muitas vezes com folga, em todas as pesquisas eleitorais até ser preso, além de liderar a oposição ao governo que hoje surfa relativamente tranquilo pela falta de adversários relevantes aos olhos do eleitor ao seu projeto político. É importante lembrar que Lula, na sua “caravana pelo país” interrompida em abril de 2018 pela sua prisão, tinha uma dificuldade enorme de engajar militantes e juntar mais do que um punhado de ouvintes em seus comícios de norte a sul do Brasil, mas seu nome insistia em liderar as pesquisas de opinião e seu candidato na eleição do ano passado, Fernando Haddad, conseguiu chegar ao segundo turno. Já Bolsonaro vai ter a chance única de deixar de lado as brigas fratricidas contra aliados, colaboradores e até contra o próprio partido e voltar a duelar com um antagonista ideológico de verdade, um ex-presidiário envolvido nos maiores escândalos de corrupção da história do país com uma sucessora que sequer se elegeu senadora no ano passado. O presidente terá uma oportunidade rara de resgatar o espírito das manifestações de 2015/16, sair do incômodo patamar de 30% de popularidade e voltar a unir a maioria do país contra o risco real de volta esquerda ao poder, como aconteceu recentemente na Argentina em mais um presente para a narrativa preferida de seus apoiadores mais radicais: “se criticar, o PT volta”. Quanto mais medo a jararaca conseguir colocar no eleitor, melhor para Bolsonaro. O tempo dirá se ela ainda tem algum veneno.

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