Por Elismar Rodrigues
Nas análises pós-eleitorais, tornou-se hábito de parte da imprensa pernambucana buscar frases de efeito e regionalismos para criar manchetes apelativas. No entanto, quando o sensacionalismo se sobrepõe à matemática básica, o jornalismo presta um desserviço ao leitor. O exemplo mais recente dessa distorção é a tese de que “os votos de Ouricuri decidiram a eleição” ou “elegeram a governadora Raquel Lyra”.
A afirmação, além de falsa, revela uma profunda falta de rigor analítico por parte dos meios de comunicação que a replicaram sem abrir a calculadora.
Os números reais do pleito
Para desmistificar o mito do “voto salvador”, basta recorrer aos dados oficiais da apuração em Pernambuco:
- Raquel Lyra (Estadual): 2.805.438 votos (53,27%)
- João Campos (Estadual): 2.360.469 votos (44,82%)
- Diferença total no estado: 444.969 votos a favor de Raquel Lyra.
Quando afunilamos o recorte para o município de Ouricuri, o cenário registrado nas urnas foi o seguinte:
- Raquel Lyra (Ouricuri): 19.010 votos
- João Campos (Ouricuri): 14.751 votos
- Vantagem local de Raquel: 4.259 votos
A matemática desmente a narrativa
A margem que separou a governadora eleita do segundo colocado no estado foi de quase meio milhão de votos (444.969).
Em um exercício hipotético simples — e até radical —, se zerássemos a votação de Raquel Lyra em Ouricuri, retirando todos os 19.010 votos obtidos no município, a diferença em favor da candidata no estado cairia para 425.959 votos. Ou seja, ela continuaria amplamente eleita, mantendo uma vantagem confortável de centenas de milhares de sufrágios.
Mesmo se analisarmos apenas a vantagem direta obtida sobre João Campos no município (4.259 votos), ela representa menos de 1% da diferença total garantida por Raquel em todo o território pernambucano.
| Âmbito | Raquel Lyra | João Campos | Diferença / Vantagem |
| Pernambuco (Total) | 2.805.438 (53,27%) | 2.360.469 (44,82%) | 444.969 votos |
| Ouricuri | 19.010 votos | 14.751 votos | 4.259 votos |
| Cenário sem Ouricuri | 2.786.428 votos | 2.360.469 votos | 425.959 votos (Vitória mantida) |
O jornalismo precisa de dados, não de slogans
Atribuir a vitória de uma eleição majoritária estadual a um único município de médio porte — sem que a margem estadual tenha sido apertada a esse ponto — é uma manobra discursiva que serve apenas para inflar o ego de lideranças locais ou gerar cliques fáceis.
Ouricuri teve papel relevante no processo democrático, como todos os demais municípios pernambucanos. Contudo, cravar que a cidade “elegeu” a governadora é ignorar a vontade dos mais de 2,7 milhões de eleitores das demais regiões do estado.
O jornalismo sério tem o compromisso de traduzir a realidade, e não de criar mitos eleitorais que desmoronam diante da primeira subtração. Ouricuri votou, participou e expressou sua vontade — mas Raquel Lyra foi eleita pelo conjunto da maioria pernambucana.

