
O escritor e pesquisador Ricardo Japiassu já tinha vasculhado a fundo a obra do farmacêutico e jornalista José do Patrocínio no seu doutorado e pós-doutorado. Na última etapa, interessado nas viagens do abolicionista pelo Nordeste brasileiro, partiu para estudar sobre o romance Os retirantes, publicado em 1878, que fala de uma de suas passagens pela região. Como os universos literários sempre nos reservam surpresas, deparou-se com as crônicas de viagem do jornalista, feitas para o Diário da Manhã. Pouco conhecido e inédito em livro, esse registro crítico, feito no calor da hora, foi o ponto de partida para o novo projeto de Japiassu.
As crônicas, com análises dele e de quatro de seus alunos, serão reunidas em um volume, intitulado Içar velas – José do Patrocínio e o Nordeste brasileiro, previsto para ser publicado neste primeiro semestre. “José do Patrocínio veio da Corte para cá, na época em que a distância entre regiões fazia o País ser realmente dividido. Só havia cartas como meio de se informar”, conta Japiassu. Foram vários dias de viagem até aportar na Bahia e, de lá, ele partiu para Maceió, Recife, João Pessoa (então Paraíba do Norte) e Fortaleza.
“O seu olhar é de estrangeiro, com uma visão exótica. Na comparação com a Corte, o Nordeste era um mundo diferente e ele logo ficou impressionado com a miséria”, aponta o pesquisador, que teve apoio da Faculdade Damas para compor o trabalho. Japiassu conta que José do Patrocínio veio para cá no período em que a seca de 1877-1879 assolou a região, deixando cerca de 500 mil pessoas mortas. Entre as impressões do jornalista, estão a pujança de Maceió e a beleza do Recife – ele ainda viu um certo ar de “decadência” em Salvador. “Maceió não tem o ar sorneiro e desconfortado da Bahia, sente-se que há seiva nos músculos da população”, aponta em uma das crônicas.
A principal marca da passagem pelo Nordeste, no entanto, foi a imagem dos flagelados, que inspirou o seu famoso romance, apontado como precursor das narrativas da seca. Nas crônicas, escritas entre junho e setembro, a miséria e a necessidade de atenção são sempre ressaltados. “José do Patrocínio tem uma visão ácida e crítica. Mostra os desmandos, a política de maus-tratos dos retirantes, a condição das mulheres que se prostituíam para sustentar suas famílias”, descreve Japiassu.
Seu lado anticlerical está presente: um dos seus alvos favoritos foram os padres em Fortaleza, que, segundo ele, viviam esbanjando as suas “banhas” nas praias enquanto muitos passavam fome. Por outro lado, ele reconhece que o melhor estabelecimento da cidade é um hospital comandado por freiras. “Ele diz que se elas comandassem as ações contra a seca, tudo estaria resolvido”, afirma. PENOTÍCIAS
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Terça, 24 de fevereiro de 2015 – Posta por Elismar Rodrigues

