Mark Weinstein é criador do site MeWe, que não tem anúncios, monitoramento em massa dos usuários nem captação de dados
Mark Weinstein, 49 anos, tem experiência em criar redes sociais. Na virada do século, o americano lançou um site de comunidades personalizáveis para cada esfera da vida: amigos, família, ex-colegas. Uma década depois, veio o Sgrouples, um embrião do que viria a se chamar o MeWe, uma rede social desenvolvida especialmente para zelar pela privacidade: sem anúncios, sem monitoramento em massa dos usuários ou captação de dados.
Weinstein ficou conhecido nos Estados Unidos por ser ativista e especialista em privacidade. Ele é procurado por veículos como USA Today e CNN e escreve para o Huffington Post sobre o tema. Crítico ferrenho do monitoramento e do uso de dados por empresas como Facebook e Google, ele acredita que a privacidade, hoje uma commodity, se tornará um bem valioso novamente, e o principal motivo para que as pessoas abram mão de redes sociais populares hoje.
Como a rede social que você criou pode ganhar do Facebook em número de usuários?
O Facebook está perdendo para si mesmo. Está documentado. No último ano, houve uma queda de 21% de engajamento, ou seja, na comunicação entre amigos no Facebook. E isso foi global. A receita deles está crescendo, e é só isso que importa. Há sempre espaço para a próxima grande coisa. WhatsApp provou isso há anos, Snapchat e Instagram também. Então, imediatamente, o Facebook comprou o WhatsApp, depois o Instagram e tentou comprar o Snapchat.
O WhatsApp, tão popular no Brasil e com um produto tão bom, anunciou há seis semanas que está monitorando usuários e dando todas as informações para o Facebook. Isso é chocante, porque o WhatsApp construiu sua reputação com base na privacidade e na segurança, mas agora também monitora com quem você está falando, quando e por quanto tempo. E essas informações vão para uma ficha permanente da pessoa. Hoje, cada busca no Google, cada vez que alguém tem uma conversa no WhatsApp, cada vez que alguém publica ou fala algo pelo Facebook, tudo isso vai para essa ficha, que se transforma em uma grande base de dados que é vendida e transferida.
Mas o Facebook é uma grande empresa, não quero dizer que algum dia vai desaparecer. Ele está tomando o rumo para se tornar um grande site de varejo, como o Craigslist e o eBay, nos Estados Unidos, em que as pessoas vendem ou trocam coisas umas com as outras. Ele está cada vez mais se distanciando do objetivo principal. O objetivo do MeWe é servir nossos membros no mundo real. Colocamos os melhores recursos de Facebook, Instagram e WhatsApp para que as pessoas aproveitem a comunicação com privacidade. Não espionamos nem monitoramos os membros nem vendemos seus dados.
E como ganhar dinheiro sem vender os dados?
Esta é a minha pergunta favorita. Vamos olhar para o sistema econômico em que vivemos: capitalismo. O capitalismo nunca precisou que empresas espionassem seres humanos para ganhar dinheiro. Os restaurantes que você frequenta não têm uma câmera na sua cozinha para saber que tipo de comida você gosta. Essa ideia falsa de que eles precisam espionar as pessoas para ganhar dinheiro perpetuou-se e é absurda.
No MeWe, a conta é gratuita, mas você paga por outros recursos, como emojis e adesivos personalizados, se quiser. E as pessoas podem pagar US$ 0,99 para comentar e curtir as coisas. Há uma empresa chamada Line, na Ásia, que, no ano passado, vendeu 268 milhões de dólares em emojis. E escute, nosso chat padrão é ótimo, seguro, mas se você quiser nosso chat secreto, com criptografia de ponta a ponta, também há um custo de US$ 5,99. Em 2017, vamos ter games.
Os algoritmos não são importantes para filtrar o conteúdo?
É preciso pensar no Facebook como ele realmente é: uma empresa de dados, não uma rede social. O modelo de negócios é baseado em dados, então, cada decisão tomada é pensando nisso. Quando eles introduziram as reações, por exemplo, antes tiveram uma grande reunião para pensar como conseguir mais dados. Então, eles criaram essas “emoções”, e pensaram que, se tivesse apenas seis delas, poderiam contabilizar tudo melhor. Cada uma delas é construída para se ter mais dados. O governo belga já alertou cidadãos que as reações do Facebook existem para captar dados.
Não há anúncios?
Nada disso tem anúncios e nada de conteúdo direcionado. O Facebook manipula conteúdo por meio dos objetivos de marketing deles. Isso vai ajudar a vender algo? Então, eles mostram. No MeWe não manipulamos, tudo é mostrado na ordem cronológica.
O Pew, um dos institutos de pesquisa com maior credibilidade na indústria, lançou dois estudos neste ano que dizem que os millenials são o público mais preocupado com a privacidade online. A conscientização está crescendo.
E as empresas de hardware? A Apple comprou uma briga há algum tempo com o FBI, que seria para zelar pela privacidade do usuário. Você acredita nisso?
O Windows 10 também monitora usuários. A maior notoriedade de Steve Jobs foi colocar Tim Cook (CEO da Apple) como seu sucessor. Eu conheci Tim, ele elogiou muito o MeWe. Ele é um verdadeiro herói. Tudo isso não é apenas sobre negócios para ele, é sobre princípios. Cook tem criticado Facebook e Google por anos, ele já comprou brigas com Eric Schmidt (atual presidente executivo e ex-presidente da Alphabet Inc., um grupo de empresas que inclui o Google), dizendo: “Tudo bem, as pessoas gostam desses serviços gratuitos, mas não achamos que vale a pena seu e-mail e suas fotos de família passarem por uma mineração de dados para serem vendidos”. Tim Cook é gay, eu sou judeu. A privacidade é importante para a nossa sexualidade e religião. É importante decidirmos qual parte das nossas vidas é privada e qual é pública. Não é uma empresa como o Facebook que deve decidir.
E o Google? Também tem um cara de confiança por trás?
Google é uma empresa de dados. Quando você instala um termostato que você pode controlar do seu telefone, todos esses dados estão indo para a sua ficha permanente. É como eles ganham dinheiro.
MeWe na prática
— No site mewe.com é preciso informar nome e sobrenome, endereço de e-mail ou número de celular e uma senha para fazer uma conta.
— O MeWe tem recursos parecidos com o Facebook, o que inclui serviço de mensagens, uma timeline chamada My World, a possibilidade de fazer posts privados para apenas alguns amigos (algo que a rede social de Zuckerberg tem, mas no MeWe é mais direto e intuitivo). Um diferencial é o serviço de nuvem, de 8GB, com opção de compra de mais espaço.
— Você não recebe posts patrocinados ou conteúdo publicitário direcionado baseado no seu histórico.
— Os posts publicados pelos usuários são mostrados na ordem cronológica, não há algoritmo para selecionar.

