A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a servir de referência para setores da oposição ao presidente argentino Javier Milei. Lideranças políticas do país vizinho avaliam que a mobilização popular e a organização digital utilizadas na campanha brasileira podem contribuir para a disputa presidencial argentina de 2027.
O resultado brasileiro recebeu o apelido de “Lulazo” em publicações da imprensa regional. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, publicada neste domingo (1º), o núcleo do PT na Argentina recebeu pelo menos dez pedidos de entrevistas e conversas para compartilhar experiências da campanha que terminou com a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL).
Uma das primeiras iniciativas surgiu poucas horas depois da definição do resultado eleitoral no Brasil. O canal de WhatsApp “Exército do Peronismo” foi criado com inspiração no “Exército do Lula”, organizado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) durante o segundo turno.
O deputado argentino Martín Lousteau, da União Cívica Radical, avalia que a eleição brasileira demonstrou a importância de combinar articulação política e ferramentas tecnológicas. Para ele, a mobilização de diferentes setores da sociedade foi um dos fatores relevantes para o resultado.
O secretário-geral do Partido Comunista da Argentina, Jorge Kreyness, também recebeu a vitória de Lula como um sinal positivo para os partidos de esquerda da região. Na avaliação dele, o resultado pode influenciar o debate político latino-americano, marcado nos últimos meses por vitórias de candidatos de direita em outros países.
A repercussão ganhou força porque Milei participou diretamente da campanha de Flávio Bolsonaro. O presidente argentino esteve no lançamento da candidatura, em São Paulo, e fez críticas a Lula durante o processo eleitoral.
Para o deputado Gustavo Fernando López, fundador do partido Forja, a derrota de Flávio representou também um revés político para Milei, que havia manifestado publicamente seu apoio ao candidato brasileiro.
Apesar do interesse na experiência petista, a oposição argentina enfrenta dificuldades para construir uma candidatura unificada. Entre os principais personagens estão a ex-presidente Cristina Kirchner, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, e o ex-ministro da Economia Sergio Massa.
O cenário econômico também deve influenciar a disputa. A inflação mensal argentina caiu de 25,5%, em dezembro de 2023, para 1,9% em setembro de 2026. Entretanto, o país registrou o fechamento de mais de 30 mil empresas, segundo levantamento da Fundação Fundar citado pela Folha.
Uma análise de 11 pesquisas divulgada pelo jornal argentino Clarín apontou desaprovação de 57% ao governo Milei. Os números, porém, não eliminam as dificuldades da oposição, que continua dividida entre diferentes lideranças e projetos políticos.
Para os dirigentes ouvidos pela Folha, uma das principais lições da eleição brasileira é a necessidade de construir alianças políticas amplas, organizar a atuação nas redes sociais e apresentar uma proposta comum antes da disputa presidencial argentina, prevista para outubro de 2027.
Fonte: Folha de S.Paulo
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