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Início » A crise hídrica é o empurrão que faltava para a economia brasileira descer a ladeira
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A crise hídrica é o empurrão que faltava para a economia brasileira descer a ladeira

Elismar RodriguesPor Elismar Rodrigues15/02/2015Atualizada:19/12/2015Nenhum comentário Leitura 13 min.
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O racionamento de água é inevitável. O de energia, cada vez mais provável

Leonardo Benassatto/Futura Press


Alckmin
Por enquanto, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin não raciona frases de efeito
Em janeiro, a Savyon, empresa de tecelagem com 250 funcionários no Bom Retiro, Centro de São Paulo, organizou um show-room
para apresentar sua nova coleção de malhas aos clientes. Por conta da
falta d’água, os convidados de Renato Bitter não puderam usar o banheiro
durante a reunião de negócios. Após o constrangimento, o empresário
decidiu investir 15 mil reais na compra de duas caixas-d’água de 10 mil
litros, além de contratar o abastecimento diário de um caminhão-pipa. O
temor agora é um possível racionamento de luz, com inevitável impacto
sobre a produção. Não há geradores com capacidade suficiente para manter
ativas as máquinas de sua planta. “Falaram que não haveria falta
d’água, mas ela é uma realidade. Podem prometer, mas é difícil confiar
que a oferta de energia não será afetada.”
O cenário é realmente desolador. Há
tempos o Brasil sofre com o desaquecimento do comércio internacional. Em
2014, a produção industrial recuou 3,2%, puxada pela retração no
consumo. O preço das commodities está em queda. A crise hídrica
no Sudeste é o empurrão que faltava para a economia descer a ladeira.
“Esse cenário, combinado ao racionamento duplo de água e energia, tem
tudo para arrastar o País para um longo ciclo recessivo”, avalia Antonio
Corrêa de Lacerda, professor da PUC de São Paulo e ex-presidente do
Conselho Federal de Economia.
Por si só, as condições da economia
brasileira não são nada promissoras. Ao se incluir na conta um cenário
de racionamento de água e energia, as estimativas ficam ainda mais
negativas. A LCA Consultores projeta estagnação em 2015, mas estima que
um corte de 10% no fornecimento de energia poderia gerar uma queda de
0,3% a 0,5% do Produto Interno Bruto. “Usamos como parâmetro os setores
mais afetados na crise energética de 2001. É mais difícil dimensionar o
impacto da falta d’água, pois nunca passamos por uma crise tão severa de
abastecimento”, explica Francisco Pessoa Faria, economista da
instituição. O Banco Itaú, por sua vez, divulgou na segunda-feira 2 uma
previsão de retração de 0,5% da economia nas condições atuais.
Acrescentou, porém: um “racionamento conjunto de água e energia elétrica
teria um efeito adicional sobre o crescimento do PIB de menos 0,6 ponto
porcentual”.

Responsável por
30% da riqueza nacional, o estado de São Paulo, administrado pelo PSDB
há 20 anos, deve liderar o País no caminho recessivo. Ao longo de 2014, o
governador Geraldo Alckmin garantiu reiteradas vezes que não faltaria
água em 2015. Passado o período eleitoral, continuou a negar a gravidade
da crise. Resultado: o Sistema Canteira, responsável por abastecer 9
milhões de habitantes nas regiões metropolitanas de São Paulo e
Campinas, está à beira do colapso, com 5,2% de sua capacidade, incluídas
as duas cotas do volume morto.
Desde a outorga para explorar o
reservatório, em 2004, a Sabesp, estatal que controla o abastecimento de
364 municípios paulistas, recebe alertas da Agência Nacional de Águas
sobre a necessidade de buscar novas fontes de captação. Segundo o
Ministério Público Estadual, a empresa lucrou 12 bilhões de reais com o
sistema desde então, dos quais quase 4 bilhões foram para o bolso de
acionistas. A distribuição de milionários dividendos deu-se sem os
investimentos necessários para preservar o Cantareira, registram os
promotores.
Alckmin ignorou ainda um plano de
racionamento elaborado por técnicos da Sabesp em janeiro de 2014. À
época, a empresa sugeria um rodízio de 48 horas com água e 24 horas sem
abastecimento. A demora na adoção da medida cobra a fatura hoje. No fim
de janeiro, Paulo Massato, diretor da companhia, alarmou a população ao
sugerir um rodízio de dois dias com água para cinco dias de torneiras
secas. Oficialmente, a Sabesp não declarou qual será o regime a ser
adotado.
A situação tem gerado uma queda de braço
entre a prefeitura da capital e o governo do estado. O prefeito petista
Fernando Haddad tem planos de contingenciamento preparados para diversos
cenários, mas espera uma posição de Alckmin sobre qual será a política
de racionamento. Por ora, a recomendação é de que todos os equipamentos
municipais, entre eles escolas, creches e hospitais, reduzam em 20% o
consumo. Na volta às aulas na quarta-feira 4, algumas escolas adotaram
medidas que fogem ao bom senso, entre elas impedir as crianças de
escovar os dentes. “Diante da falta de informação, algumas escolas
tomaram medidas extremas por conta própria”, justifica Haddad.
A prefeitura defende um período de
rodízio igual para todos os paulistanos, para não gerar um desequilíbrio
no abastecimento. Há o temor de que regiões atendidas pelos sistemas
Alto Tietê e Guarapiranga tenham mais água disponível na comparação com
aquelas no perímetro do Cantareira. O risco de distúrbios e levantes
populares não é descartado.
Como a lei
garante prioridade ao abastecimento humano, a agricultura e a indústria
tendem a ser duramente afetadas. Apenas no setor de hortifrútis, a
restrição de água pode afetar 50% dos produtores. Responsável por 60% do
PIB do estado, a indústria prevê queda na produção, redução de
investimentos e demissões. Na região de Campinas, o cenário é mais
grave. Uma resolução do Departamento Estadual de Água impõe redução de
30% na captação industrial caso o Cantareira opere com menos de 5% de
sua capacidade.
Um levantamento realizado pela Federação
das Indústrias de São Paulo detalha as expectativas do empresariado. De
413 companhias consultadas, 67% afirmam temer o racionamento e 54% não
têm fontes alternativas. O setor de serviços, que há meses convive com o
abastecimento instável, improvisa formas de driblar a crise.
Restaurantes da capital passaram a usar copos e pratos descartáveis. A
higienização das mãos é realizada com álcool em gel. Somente as empresas
do ramo de abastecimento parecem vislumbrar um 2015 promissor.
Segundo a Associação Nacional dos
Comerciantes de Material de Construção, as vendas de caixas-d’água em
São Paulo aumentaram 50% no último ano. As empresas de caminhão-pipa
também aproveitam a oportunidade. Proprietário da companhia A Predileta,
Edmilson Gusmão viu seu faturamento crescer 30% em janeiro. Os 48
caminhões da firma atendem, sobretudo, complexos residenciais e
comerciais em Alphaville. Com contratos assinados para os próximos seis
meses, Gusmão teme não ter condições de aceitar novas encomendas, graças
à baixa de 30% no nível de seu poço artesiano em Santana do Parnaíba.
“O preço pode aumentar, pois teremos de captar água em fontes mais
distantes.”
Em um restaurante especializado em
pamonhas na Rodovia dos Bandeirantes, no interior paulista, o encanador
Oswaldo Barbosa desenvolveu um sistema de captação de chuva no qual
calhas são utilizadas para direcionar a água do telhado a duas caixas de
6 mil litros. “Captamos essa água para refrescar o telhado, pois o
calor tem sido muito forte no verão.”
A prefeitura de São Paulo teme, porém, a
proliferação de doenças por causa do aumento do armazenamento de água em
recipientes destampados. O número de casos de dengue registrados na
capital paulista triplicou nas três primeiras semanas de janeiro em
comparação ao mesmo período do ano passado, segundo a Secretaria da
Saúde.
Segundo Paulo
Canedo, coordenador do Laboratório de Hidrologia da Coppe-UFRJ, os
impactos seriam bem menores se o racionamento fosse decretado há um ano.
“No fim de 2013, havia todos os indícios da crise, mas Alckmin preferiu
confiar em São Pedro. Agora, não há como sair da crise sem sofrimento.”
Na sua avaliação, a situação do Rio de Janeiro e de Minas Gerais é mais
confortável, mesmo assim recomenda a adoção imediata de medidas de
racionamento.
Ao menos 88 municípios mineiros têm
sentido na pele a falta de água. A nova direção da Copasa, a companhia
de saneamento do estado, alerta que a situação de 31 cidades
metropolitanas, entre elas Belo Horizonte, é “extremamente preocupante” e
orientou a população a reduzir o consumo em 30%. No Rio de Janeiro, as
atenções estão voltadas para quatro reservatórios do Rio Paraíba do Sul.
Eles integram o Sistema Guandu, responsável pelo abastecimento de 12,3
milhões de habitantes, três quartos da população. Dois deles atingiram o
volume morto, e a ANA voltou a recomendar a diminuição da vazão do rio,
dos atuais 140 para 110 metros cúbicos por segundo. Apesar dos sinais
de alerta, o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, do PMDB,
descarta, por ora, um racionamento. “É temerário. Se não restringir o
consumo, o Rio corre o risco de chegar em 2016 com uma situação
semelhante à de São Paulo hoje”, emenda Canedo.
O engenheiro Leo Heller, professor da
UFMG e relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento,
reconhece a inevitabilidade do racionamento e critica a forma como as
medidas têm sido planejadas. “O corte de abastecimento indiscriminado
pode ser desastroso nos bolsões de pobreza, além de atingir creches,
asilos, hospitais, penitenciárias. É preciso proteger as populações
vulneráveis.”
Dona de uma pequena venda em Itapevi,
região metropolitana de São Paulo, Roseane Acácio sofre com a falta de
água diariamente. Localizada em um ponto alto da cidade, sua casa tem
sido afetada pela redução da pressão da água, estratégia utilizada pela
Sabesp desde meados de 2014. A região é atendida pelo Sistema Alto e
Baixo Cotia, que opera com menos de 30% da capacidade. A escassez na
cidade antecede a crise hídrica: moradores convivem com o problema há
pelo menos dois anos. A situação agravou-se nas últimas semanas, gerando
protestos de moradores. Em razão do investimento para montar seu
negócio, a família não tem recursos para comprar novas caixas-d’água.
“Tivemos de improvisar quatro tonéis de 250 litros nos cômodos da casa.”
Diante da crise, a Organização das Nações
Unidas para Alimentação e Agricultura manifestou preocupação com a
segurança alimentar. “Pequenos produtores podem quebrar, com impactos
sobre o preço dos alimentos”, explica Alan Bojanic, representante da FAO
no Brasil. “Essa crise demonstra a necessidade de investimentos em
tecnologias para economizar água na agricultura e proteger os
mananciais.” A Comissão Pastoral da Terra também teme a escalada da
violência no campo. Apenas em 2013, foram registrados 93 conflitos por
água em 19 estados, o maior número da série histórica iniciada em 2002.
Os impactos na economia ocorrem em todos
os estados do Sudeste. O secretário de Desenvolvimento Econômico de
Minas Gerais, Altamir Rôso, prevê dificuldades para a agricultura e
setores industriais que fazem uso intensivo da água, como mineração e
siderurgia. “Temos de ser realistas. Se faltar água, é bem possível uma
retração no PIB mineiro em 2015.” No Rio, os produtores rurais
acumularam perdas de 100 milhões de reais no último trimestre de 2014. A
estiagem prolongada provocou a morte de 2 mil cabeças de gado nas
regiões norte e noroeste do estado.
Além do temor de
um racionamento de água e energia, os empresários queixam-se do elevado
preço pago pela indústria brasileira por eletricidade. O custo médio
subiu de 360,85 reais por megawatt-hora, em dezembro, para 403,8 reais,
em fevereiro. A média internacional é o equivalente a 275 reais, segundo
um ranking de 28 países monitorados pela Federação das Indústrias do
Rio de Janeiro. “Diante da perspectiva de um aumento nas bandeiras
tarifárias de energia e de reajustes cobrados pelas operadoras, a
energia pode encarecer até 40% ao longo deste ano”, afirma Cristiano
Prado, gerente de Competitividade Industrial e Investimentos do Sistema
Firjan. “Isso trará impactos diretos sobre a produção, pois a energia é o
nosso principal insumo.”
A escassez de chuvas em janeiro aumentou o
risco de apagões. O volume de chuvas sobre os reservatórios de
hidrelétricas do Centro-Oeste e do Sudeste corresponde a 38% da média
histórica, o pior índice para o mês desde 1931. De acordo com o Comitê
de Monitoramento do Setor Elétrico, o risco de faltar energia nessas
regiões aumentou para 7,3%, acima do limite de segurança estabelecido
pelo governo federal, de 5%. Apesar do alerta, o relatório do CMSE,
divulgado na quarta-feira 4, assegura que no sistema elétrico “há sobra
estrutural de cerca de 7.300 MW médios para atender à carga prevista”.
Desde o apagão que deixou 3 milhões de
brasileiros sem luz em 19 de janeiro, o ministro de Minas e Energia,
Eduardo Braga, evita falar em racionamento. O blecaute foi atribuído a
falhas técnicas. Braga prometeu lançar um programa de eficiência
energética, com incentivos para os consumidores trocarem lâmpadas e
equipamentos eletrônicos por modelos mais econômicos. A letargia do
governo não inspira, no entanto, confiança. “Esperamos que, nos próximos
60 a 90 dias, possamos ter um conjunto de ações”, anunciou no fim de
janeiro. Na quarta-feira 4, voltou a negar o risco de apagões: “No
momento, podemos garantir o suprimento de energia para o País”.
A redução do nível de dois reservatórios
instalados no Rio Paraíba do Sul já forçou o desligamento de duas
hidrelétricas. Como as usinas tinham baixa participação na geração de
energia para o sistema, o Operador Nacional do Sistema Elétrico não teve
dificuldade para remanejar energia de outros polos geradores. Não há
clareza, contudo, sobre o que aconteceria se hidrelétricas de maior
porte tivessem de parar a operação.
Há meses a Usina
de Três Marias, na região central de Minas, funciona com apenas uma de
suas seis turbinas. As demais são ligadas apenas três horas por dia. Com
capacidade de 396 MW, a hidrelétrica gera, atualmente, 36 MW em média.
Mesmo assim, o reservatório, que integra a Bacia do Rio São Francisco,
está com 10% de sua capacidade. A represa de Furnas, ao sul do estado,
também fechou o mês de janeiro em alerta, com apenas 9,46% de sua
capacidade. A potência instalada da hidrelétrica é de 1,2 mil MW,
suficiente para abastecer uma cidade com 2 milhões de habitantes. Duas
turbinas estão paradas e a geração foi reduzida a um terço.
Na avaliação de especialistas, o
racionamento de energia também seria inevitável. A água disponível nos
reservatórios das hidrelétricas no Sudeste, principal reserva do
sistema, é suficiente para a geração de energia por apenas um mês,
estima Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ e ex-presidente da
Eletrobras. No fim de janeiro, Pinguelli Rosa enviou uma carta ao
ministro de Minas e Energia, na qual pedia a adoção de medidas para
diminuir o consumo no País. “Desde 2008 o nível dos reservatórios tem
caído. Se o racionamento tivesse sido adotado há dois anos, o impacto
seria bem menor. Bastaria reduzir 5% da oferta. Agora, o corte pode
ficar entre 10% e 20%.”
Para suprir o déficit das hidrelétricas, as usinas
térmicas têm operado a pleno vapor desde 2013. Nos 12 meses encerrados
em novembro do ano passado, as termoelétricas responderam por 22% da
energia produzida no Sistema Interligado Nacional, mais que o dobro do
período anterior, segundo a Câmara de Comercialização de Energia
Elétrica. Atualmente, elas geram algo em torno de 17 mil MW por dia,
diante de uma capacidade total de 21,6 mil MW no SIN. “Se não chover
muito, dificilmente as térmicas darão conta do recado”, afirma
Pinguelli. “E as previsões meteorológicas não são nada animadoras.”
Assim como a água e a energia, o otimismo no País tornou-se um bem
escasso.
Fonte: Carta Capital
 Domingo, 15 de fevereiro de 2015 – Postado por Elismar Rodrigues
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Elismar Rodrigues
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Elismar Rodrigues é radialista e jornalista com atuação focada em informação local e cobertura de interesse público. Com experiência em comunicação e produção de conteúdo, contribui para o fortalecimento do jornalismo regional como editor chefe do portal Ouricuri em Foco. DRT 0004434/PE – Radialista | DRT-PE 0006914 – Jornalista

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